A Selic caiu para 13,75%. Seu dinheiro ainda está no lugar certo?
A Selic caiu para 13,75% ao ano. Veja quanto podem render CDB, Tesouro e LCI/LCA — e por que a maior taxa nem sempre significa a melhor escolha.
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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (CC BY 2.0)
Atualizado em 30/10/2026: a Selic segue em 13,75% ao ano, definida pelo Copom em 16 de setembro. A próxima reunião está marcada para 3 e 4 de novembro.
A Selic caiu para 13,75% ao ano. A primeira reação de muita gente é perguntar quanto o dinheiro passa a render. Faz sentido. Só que existe uma pergunta melhor: o seu dinheiro ainda está no lugar certo para o objetivo que ele precisa cumprir?
Com juros ainda altos, diferenças aparentemente pequenas entre Tesouro Selic, CDB, LCI/LCA e poupança podem virar alguns milhares de reais quando o patrimônio cresce. Ao mesmo tempo, escolher apenas pelo maior percentual pode fazer você ignorar liquidez, risco de crédito, imposto e prazo.
Então vamos fazer as duas coisas: primeiro olhar os números. Depois entender o que eles realmente significam.
O que mudou com a Selic a 13,75%
Na reunião de setembro de 2026, o Copom reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano. Foi mais um passo no ciclo de cortes, mas isso não significa que os juros ficaram baixos.
Na própria ata, o Banco Central afirma que a política monetária continua restritiva e que o ritmo dos próximos movimentos dependerá da inflação, da atividade econômica e do balanço de riscos. Em outras palavras: existe um ciclo de queda em andamento, mas ninguém deveria montar uma carteira como se já soubesse exatamente onde a Selic vai terminar.
Para quem investe em renda fixa, a consequência mais imediata é simples: aplicações pós-fixadas ligadas à Selic ou ao CDI continuam rendendo bem, mas um pouco menos do que antes.
IPCA-15 de outubro: a inflação desacelerou, mas ainda pressiona os juros?
O IBGE divulgou em 23 de outubro de 2026 um novo dado importante para a trajetória dos juros: o IPCA-15 subiu 0,32% em outubro, após 0,70% em setembro. Apesar da desaceleração mensal, o acumulado em 12 meses avançou de 4,47% para 4,62%, acima do limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância da meta. É importante distinguir os indicadores: a meta de inflação é aferida pelo IPCA oficial, e não pelo IPCA-15, que funciona como prévia.
A desaceleração não foi uniforme. Alimentação e bebidas avançou 0,88%, com alta de 1,01% nos alimentos consumidos em casa. Já Habitação recuou 0,10%, influenciada pela queda de 0,89% na energia elétrica residencial após a mudança para a bandeira verde. Assim, uma inflação mensal menor não significa que todos os preços estejam perdendo força.
Para quem acompanha a Selic, a leitura é dupla: o índice mensal trouxe algum alívio, mas a inflação acumulada e os alimentos continuam exigindo atenção. O Focus divulgado em 19 de outubro projetava Selic de 13,25% ao fim de 2026 e IPCA de 5,22% para o ano. São expectativas de mercado, não decisões do Banco Central. O Copom continua dependendo do conjunto de dados, das expectativas e dos riscos.
Na prática, não faz sentido presumir cortes automáticos ou refazer toda a carteira por causa de uma única prévia. Para comparar Tesouro Selic, CDBs e títulos prefixados, o caminho continua sendo avaliar cenários, liquidez, prazo e retorno real, sem projetar a taxa de hoje como se fosse permanente.
Quanto rende com a Selic a 13,75%?
Para comparar produtos sem misturar premissas, vou usar uma simulação de um ano com as seguintes hipóteses:
- Selic de 13,75% a.a. mantida durante todo o período;
- CDI aproximado de 13,65% a.a.;
- IR de 17,5% sobre os rendimentos do Tesouro Selic e dos CDBs após um ano;
- LCI/LCA a 85% do CDI, considerando isenção de IR para pessoa física;
- sem considerar mudanças futuras de taxa, custos específicos da instituição ou diferenças de spread.
Os números abaixo são ilustrativos. Na prática, Selic e CDI podem mudar durante o período, e a rentabilidade oferecida por cada produto varia.
Resumo: na simulação abaixo, R$ 10 mil aplicados por 12 meses chegam a cerca de R$ 11.126 em um CDB de 100% do CDI e a R$ 11.134 no Tesouro Selic, já descontado o IR de 17,5%. Numa LCI/LCA de 85% do CDI, isenta, chegam a R$ 11.160. São valores ilustrativos, sem custos e com taxa constante.
| Aplicação | R$ 1 mil | R$ 10 mil | R$ 50 mil | R$ 100 mil |
|---|---|---|---|---|
| Tesouro Selic (aprox.) | R$ 1.113,44 | R$ 11.134,38 | R$ 55.671,88 | R$ 111.343,75 |
| CDB 100% do CDI | R$ 1.112,61 | R$ 11.126,13 | R$ 55.630,63 | R$ 111.261,25 |
| CDB 110% do CDI | R$ 1.123,87 | R$ 11.238,74 | R$ 56.193,69 | R$ 112.387,38 |
| LCI/LCA 85% do CDI | R$ 1.116,03 | R$ 11.160,25 | R$ 55.801,25 | R$ 111.602,50 |
O ponto interessante aparece quando o valor investido cresce. Em R$ 1 mil, a diferença entre algumas alternativas parece pequena. Em R$ 100 mil, já pode passar de R$ 1 mil no mesmo horizonte.
Mas ainda não dá para simplesmente olhar a maior linha da tabela e concluir que ela é “a melhor”.
CDB ou Tesouro Selic: não é só comparar a taxa
Um CDB pagando 110% do CDI naturalmente chama mais atenção do que outro pagando 100%. Só que essa taxa vem junto de outras perguntas: quem é o emissor? Qual é o prazo? Existe liquidez diária? O dinheiro pode ser resgatado quando você quiser? A aplicação está dentro dos limites de cobertura do FGC?
No Tesouro Selic, o risco de crédito é do governo federal e existe liquidez diária de recompra pelo Tesouro Direto em condições normais de mercado. Já no CDB, as condições dependem da instituição e do título escolhido.
Ou seja: 110% do CDI pode ser ótimo. Pode também ser uma taxa que está compensando menor liquidez, prazo mais longo ou risco de crédito maior. O percentual sozinho não conta a história.
E a LCI/LCA isenta de IR?
A isenção faz uma diferença importante. É por isso que uma LCI ou LCA pagando 85% do CDI pode entregar um resultado líquido próximo — ou até superior — ao de um CDB que paga uma porcentagem maior do CDI.
Mas, de novo, existe um detalhe: muitas LCIs e LCAs têm carência ou vencimento definido. Se o dinheiro tem função de reserva de emergência, uma taxa líquida um pouco maior não compensa ficar sem acesso ao capital quando ele é necessário.
Essa é uma boa aplicação prática do que discutimos em risco e retorno nos investimentos: rentabilidade precisa ser analisada junto com liquidez, prazo e risco.
A poupança ainda faz sentido com a Selic a 13,75%?
Com a Selic acima de 8,5% ao ano, a regra da poupança é de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR). Ela tem algumas vantagens: simplicidade, isenção de Imposto de Renda para pessoa física e liquidez.
O problema é que essa simplicidade costuma vir acompanhada de uma rentabilidade inferior a alternativas pós-fixadas competitivas. Para quem já consegue acessar Tesouro Selic ou CDBs de boa qualidade com liquidez adequada, vale pelo menos fazer a comparação antes de deixar o dinheiro parado na poupança por inércia.
A diferença que realmente importa
É fácil gastar muito tempo tentando decidir entre 100%, 105% e 110% do CDI. Às vezes essa diferença importa. Em outras, estamos discutindo décimos enquanto ignoramos decisões muito maiores.
Se uma reserva de emergência está presa em um produto sem liquidez, o problema não é a taxa. Se o investidor assumiu risco de crédito que não entende para ganhar alguns pontos percentuais do CDI, o problema também não é a taxa.
E se todo o patrimônio está concentrado em renda fixa apenas porque a Selic está alta hoje, pode existir outro problema: uma decisão de longo prazo sendo tomada com base em uma fotografia de curto prazo.
E se a Selic continuar caindo?
Essa é provavelmente a pergunta mais importante do artigo.
Em produtos pós-fixados, a rentabilidade acompanha o movimento dos juros. Se a Selic cair, o retorno futuro dessas aplicações tende a cair junto.
Prefixados e títulos atrelados à inflação funcionam de outra forma e podem se beneficiar ou sofrer com mudanças nas expectativas de juros, dependendo do preço de compra, do prazo e da necessidade de vender antes do vencimento.
Isso não significa que agora seja “hora de sair da renda fixa” ou “hora de entrar na bolsa”. A redução da Selic, sozinha, não transforma automaticamente um ativo em bom investimento.
O que muda é o preço relativo das alternativas. Conforme o prêmio da renda fixa diminui, outros ativos podem se tornar mais competitivos. Mas cada decisão ainda precisa passar por preço, risco e objetivo.
Há também quem defenda cortes bem mais fortes: o economista André Lara Resende propôs levar a Selic a cerca de 7,5% em 12 meses. Entenda a proposta de André Lara Resende e quem decide a Selic.
Onde deixar cada tipo de dinheiro?
Em vez de começar pelo produto, eu prefiro começar pela função do dinheiro.
| Função do dinheiro | O que observar primeiro |
|---|---|
| Reserva de emergência | Liquidez, segurança e previsibilidade |
| Objetivo de curto prazo | Prazo, vencimento e risco de precisar resgatar antes |
| Objetivo de médio/longo prazo | Retorno real, inflação, risco e horizonte |
| Capital para oportunidades | Liquidez e custo de oportunidade |
Esse raciocínio parece menos emocionante do que procurar “o investimento que mais rende hoje”. Só que ele evita um erro comum: escolher primeiro o produto e só depois tentar descobrir para que aquele dinheiro deveria servir.
Rendimento alto de um ano não é o mesmo que patrimônio construído ao longo do tempo. O e-book Renda Não É Patrimônio trata dessa diferença entre renda e patrimônio.
Perguntas frequentes
Quanto rende a Selic de 13,75% por mês?
Uma taxa de 13,75% ao ano equivale aproximadamente a 1,08% ao mês em termos compostos, se ela permanecesse constante. Isso não significa que um investimento líquido vá entregar exatamente 1,08% no mês: existem impostos, taxas, dias úteis e diferenças entre produtos.
CDB de 100% do CDI rende quanto com a Selic a 13,75%?
Usando um CDI aproximado de 13,65% ao ano e mantendo essa taxa por um ano, um CDB de 100% do CDI teria retorno bruto próximo desse percentual. Em um resgate após um ano, a incidência de IR sobre o rendimento reduz o retorno líquido.
É melhor CDB ou Tesouro Selic?
Depende do emissor, da taxa oferecida, da liquidez, do prazo e da função do dinheiro. Comparar somente a rentabilidade pode esconder diferenças importantes de risco e disponibilidade do capital.
Histórico de atualizações
- 30/10/2026: revisão de título, meta e resumo da simulação. Selic em 13,75% ao ano, definida pelo Copom em 16/09/2026 (281ª reunião).
- 27/09/2026: publicação original, após o corte da Selic para 13,75% ao ano.
Fontes
- IBGE – “Inflação (painel de indicadores)” – sem data (acesso em 31/10/2026): https://www.ibge.gov.br/indicadores-e-pesquisas/inflacao.html
- Banco Central do Brasil – “Focus – Relatório de Mercado – 16/10/2026” – 19/10/2026: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus/16102026
- Banco Central do Brasil – “Ata da 281ª Reunião do Copom – 15-16 setembro, 2026” – 22/09/2026: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/atascopom/16092026
- Banco Central do Brasil – “Relatório de Política Monetária – setembro de 2026” – 24/09/2026: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/rpm/202609
- Tesouro Direto – “Quem somos” – sem data: https://www.tesourodireto.com.br/conheca/
- Banco Central do Brasil – “Remuneração dos Depósitos de Poupança” – sem data (série; acesso em 31/10/2026): https://www.bcb.gov.br/pec/poupanca/poupanca.asp?frame=1
Este artigo usa como referências a Ata da 281ª reunião do Copom, o Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, os IPCA-15 de setembro e outubro de 2026 divulgados pelo IBGE, as regras de tributação do Tesouro Direto e a regra de remuneração da poupança divulgada pelo Banco Central.









