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Selic a 7,5%: a proposta de André Lara Resende explicada

André Lara Resende propõe levar a Selic a cerca de 7,5% em 12 meses e depois a uma faixa de 3% a 5,5%. Entenda de onde vem o número de 5%, quem decide os juros e o que 2012 e 2015 mostram.

Jhonny Cazoni11 min de leitura

Atualizado em

Prédio do Banco Central do Brasil em Fortaleza — imagem sobre Selic a 7,5%

Foto: Joelkaula/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Publicado em 01/11/2026 às 17:25 · Atualizado em 02/11/2026 às 02:06 (horário de Brasília)

Foto: Ricardo Stuckert/PR (Palácio do Planalto), foto oficial do presidente Lula, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Redimensionada.

Resposta direta: o economista André Lara Resende propôs, em artigo de 25/09/2026, que o Banco Central anuncie um corte gradual da Selic, de 13,75% para perto de 7,5% ao ano em cerca de 12 meses, e depois mantenha a taxa entre 3% e 5,5%. Hoje, quem decide a Selic é o Copom, que se reúne em 3 e 4/11.

O que André Lara Resende propôs?

A proposta está no artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, publicado por Lara Resende em seu Substack em 25 de setembro de 2026 e debatido por ele no CEBRI em 23 de outubro. O tema voltou ao noticiário porque, segundo a coluna de Lauro Jardim (O Globo), o economista tem encontro marcado com o presidente Lula em Brasília nesta semana.

Os pontos centrais, nas palavras do próprio texto original:

  • Transição: o BC “anunciaria a redução gradual do juro básico, ao longo de cerca de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano”.
  • Faixa permanente: depois, a Selic ficaria entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial, “em torno de 5,5% ao ano (3% de inflação mais 2,5% de crescimento)”.
  • Novo conselho: um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN) definiria metas fiscais e monetárias para quatro a cinco anos, incluindo metas para a taxa básica.
  • Câmbio: o BC atuaria no câmbio, se necessário, usando as reservas internacionais (“mais de US$ 350 bilhões”, segundo o autor).

7,5% ou 5,5%? Os dois números aparecem, em papéis diferentes. 7,5% é o alvo da transição de cerca de 12 meses. 5,5% é o teto da faixa permanente (3% a 5,5%) que viria depois, quando o “spread de segurança” de 2 pontos fosse zerado. Ler “Selic a 5,5% em 12 meses” é um erro.

É “na canetada”? A expressão é do debate público, não do artigo. O texto descreve uma queda anunciada e gradual. Mas a meta seria definida por um arranjo institucional novo (o CFMN), e não pela avaliação do Copom reunião a reunião. É essa mudança de quem decide que gera a polêmica.

Selic a 5%? De onde vem esse número

Nas buscas, circula a ideia de “Selic a 5%” ou “a 5,5%”. O número existe na proposta, mas não como a taxa a ser atingida em 12 meses. No artigo original, 5,5% é o teto da faixa permanente (de 3% a 5,5%) em que a Selic ficaria depois da transição: 3% de meta de inflação mais 2,5% de crescimento real potencial, nas contas do autor. O alvo da transição de cerca de 12 meses é perto de 7,5%, ou seja, 5,5% mais um “spread transitório de segurança” de 2 pontos, que seria reduzido aos poucos. O texto não define prazo para chegar à faixa de 3% a 5,5%.

Quem decide a Selic no Brasil?

Pela Lei Complementar 179/2021, que deu autonomia ao Banco Central, o objetivo fundamental do BC é assegurar a estabilidade de preços. O presidente e os diretores do BC têm mandatos fixos de quatro anos, não coincidentes com o do presidente da República, e só podem ser exonerados nas hipóteses previstas na lei. A meta da Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), formado pela diretoria do BC. A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Na decisão mais recente, em 16/09/2026 (281ª reunião), o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, por unanimidade. A próxima reunião é em 3 e 4 de novembro de 2026, com a decisão divulgada na quarta-feira (04/11), conforme o calendário do BC. No Focus de 23/10/2026, a mediana do mercado aponta Selic de 13,25% no fim de 2026 e 11,75% no fim de 2027, com IPCA de 5,19% em 2026 e 4,34% em 2027.

Na prática, para a Selic chegar a 7,5% em 12 meses, o próprio Copom teria de decidir isso, ou a lei teria de mudar para criar o CFMN e a faixa de juros. Até aqui, não há projeto de lei conhecido com esse conteúdo.

O que acontece num corte forçado versus num corte natural?

Economistas costumam separar dois cenários. No corte natural, a Selic cai porque a inflação e as expectativas já estão convergindo para a meta. No corte forçado, a queda vem por decisão política ou por regra externa, antes de essas condições aparecerem. Os efeitos abaixo são mecanismos descritos na literatura e nos documentos do próprio BC, sem estimativa de tamanho.

Canal Corte natural (inflação convergindo) Corte forçado (sem convergência)
Câmbio Diferencial de juros cai aos poucos; tende a haver menos pressão sobre o real Saída de capital de curto prazo (carry trade) pode desvalorizar o real
Juros futuros Taxas longas tendem a acompanhar a queda Taxas longas podem cair pouco ou subir, embutindo prêmio de risco
Crédito e financiamento Barateamento gradual do crédito Pós-fixado barateia; prefixado e longo podem não acompanhar
Inflação Expectativas seguem ancoradas Risco de desancoragem das expectativas e de inflação maior adiante

Câmbio

Juros mais baixos reduzem o ganho de quem traz dólares para aplicar em reais. Se a queda for vista como precipitada, a saída pode ser rápida, o real se desvaloriza e importados e combustíveis encarecem. O próprio Lara Resende reconhece esse canal e propõe usar as reservas para suavizá-lo. Críticos, como o economista João Caetano Leite, apontam que reservas amortecem choques, mas o resultado depende da reação de expectativas e investidores.

Juros futuros e financiamento

O Copom controla a taxa de curtíssimo prazo. As taxas de prazos longos, que balizam financiamento imobiliário, crédito a empresas e títulos prefixados, são formadas no mercado. Se investidores acharem que a inflação vai subir e que o BC terá de voltar a elevar os juros, essas taxas podem cair pouco ou até subir. Lara Resende, por sua vez, argumenta que a dívida pública curta e indexada à Selic (LFTs) faria o custo da dívida cair rápido.

Inflação

O canal mais sensível é o das expectativas. O comunicado do Copom de setembro cita “desancoragem das expectativas” e Focus acima da meta de 3%. Em geral, cortar juros com expectativas desancoradas aumenta o risco de a inflação demorar mais para cair. A proposta original afirma que o canal fiscal (dívida curta) e o cambial (reservas) estariam “neutralizados”; esse é justamente o ponto em disputa no debate.

O que a história mostra: 2012 e 2015

O Brasil já viveu os dois lados. Entre agosto de 2011 e outubro de 2012, o Copom cortou a Selic até o então menor nível da série, 7,25%. Com a inflação perto do teto da meta da época (4,5% com tolerância de 2 pontos), o BC voltou a subir os juros em abril de 2013, e o ciclo de alta levou a Selic a 14,25% em julho de 2015, ano em que o IPCA passou de 10%.

Data Selic (meta) IPCA do ano Dólar (PTAX venda)
11/10/2012 (vigência) 7,25% 5,84% (2012) R$ 2,04 (11/10/2012)
18/04/2013 (vigência) 7,50% (retomada da alta) 5,91% (2013) —
30/07/2015 (vigência) 14,25% 10,67% (2015) R$ 3,37 (30/07/2015)

Fontes: Selic, BCB/SGS série 432; IPCA (IBGE), acumulado no ano a partir da série 433 do SGS; dólar, PTAX venda, série 1 do SGS.

A leitura desse período não é unânime. Muitos economistas veem no ciclo 2011–2012 um corte que se antecipou à convergência da inflação. Outros atribuem a alta posterior a choques fiscais, de preços administrados e cambiais. O que os dados mostram é que a Selic baixa de 2012 não se sustentou.

O que isso muda para o seu dinheiro?

Por enquanto, nada muda: a proposta é um artigo de opinião, e a Selic segue em 13,75% até a decisão do Copom de 04/11. Para entender os possíveis efeitos, vale saber como cada tipo de aplicação reage a juros:

  • Pós-fixados (Selic/CDI): rendem conforme a Selic vigente. Se a taxa cai, o rendimento futuro cai junto. Veja quanto rendem as aplicações no nosso texto sobre a Selic a 13,75%.
  • Prefixados e atrelados à inflação: o preço desses títulos oscila com os juros futuros, que reagem a expectativas, e não só à Selic do dia.
  • Dívidas: crédito pós-fixado acompanha a Selic; o de prazo longo depende mais dos juros futuros.
  • Câmbio: quem tem gastos em dólar sente primeiro uma eventual desvalorização do real.

Em momentos de incerteza sobre juros, ter uma reserva de emergência bem montada costuma pesar mais do que tentar adivinhar o próximo Copom. Para acompanhar as projeções do mercado, veja nossa leitura do Boletim Focus.

Perguntas frequentes

Quem é André Lara Resende?

É economista, um dos formuladores dos planos Cruzado e Real, segundo a coluna de Lauro Jardim (O Globo) e o Valor. É conselheiro do CEBRI e publica seus textos em um Substack.

Lara Resende propôs Selic de 7,5% ou de 5,5%?

Os dois, em etapas: cerca de 7,5% ao ano como alvo de uma transição de cerca de 12 meses, e depois uma faixa permanente entre 3% e 5,5%.

A Selic vai cair para 5%?

Não há decisão nesse sentido. A Selic está em 13,75%, e a mediana do Focus de 23/10/2026 projeta 13,25% no fim de 2026 e 11,75% no fim de 2027. A proposta de Lara Resende é um artigo de opinião e não tem força de decisão.

O Lula pode baixar a Selic?

Não diretamente. Pela LC 179/2021, a Selic é definida pelo Copom, e o presidente e os diretores do BC têm mandato fixo de quatro anos. Mudar isso exigiria mudança em lei.

Quando o Copom decide a Selic?

Na quarta-feira, 04/11/2026, ao fim da reunião de 3 e 4 de novembro, conforme o calendário do BC.

Atualizações

Atualização (02/11, 02h10 BRT): O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou no domingo (1º) que o governo avalie tabelar a Selic. “Nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente”, disse, segundo a Folha de S.Paulo. Ele também afirmou que não há reunião agendada entre o presidente Lula e André Lara Resende; segundo o ministro, vários economistas se colocaram à disposição para colaborar, em contato com o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, mas sem encontro previsto. Ao Valor Econômico, Durigan disse ainda que não estão em avaliação propostas como tabelar juros ou gastar reservas internacionais, dois pontos da proposta de Lara Resende. Mercadante declarou à Folha que “essa proposta não está no governo”. A notícia de um encontro havia sido publicada pelo colunista Lauro Jardim, do O Globo, segundo o Valor. A Selic segue em 13,75% ao ano, e o Copom anuncia sua decisão na quarta-feira (4).

Fontes
  • André Lara Resende, “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, Substack, 25/09/2026 — link
  • CEBRI, CEBRI Conversa de 23/10/2026 — link
  • O Globo, coluna Lauro Jardim, nov/2026 — link
  • Valor International, coluna de Pedro Cafardo — link
  • João Caetano Leite, “Notas sobre a proposta de André Lara Resende” — link
  • Banco Central, comunicado do Copom de 16/09/2026 — link
  • Banco Central, calendário — link
  • Banco Central, Focus de 23/10/2026 — link
  • Lei Complementar 179/2021 — Planalto
  • BCB/SGS séries 432 (Selic), 433 (IPCA/IBGE) e 1 (dólar PTAX)
  • Folha de S.Paulo, “Tabelamento de juros não está na mesa de Lula, diz ministro da Fazenda”, 01/11/2026 — link
  • Valor Econômico, “Durigan diz que não há encontro agendado entre Lula e Lara Resende”, 01/11/2026 — link
  • SBT News (Iander Porcella), “Ministro da Fazenda nega discussão sobre tabelar taxa Selic”, 02/11/2026 — link

Conteúdo informativo e educativo, não constitui recomendação de investimento. Jhonny Cazoni, Consultor CVM 003880-6.

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