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Investimentos

A Copasa foi vendida para a Equatorial? O que muda com a privatização em Minas

A Copasa foi privatizada, mas a Equatorial não comprou 100% da empresa. Entenda a operação, quem controla CSMG3 agora e os possíveis impactos econômicos e sociais para Minas.

Jhonny Cazoni10 min de leitura

Atualizado em

Estação de tratamento de água em Minas Gerais — imagem sobre A Copasa foi vendida para a Equatorial

Foto: HVL/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A Copasa entrou em uma nova fase. Em junho de 2026, o Estado de Minas Gerais vendeu 45% do capital da companhia em uma oferta pública secundária de ações. A Equatorial, por meio da Gerais Saneamento, ficou com 30% da empresa e se tornou o maior acionista individual. Em setembro, a mudança chegou à governança: novo conselho, nova diretoria e a consolidação da Copasa como sociedade privada.

Mas dizer simplesmente que “a Equatorial comprou a Copasa” é impreciso. A operação foi mais ampla, e entender essa estrutura é importante para avaliar tanto CSMG3 quanto os possíveis efeitos econômicos e sociais da privatização.

O que aconteceu na privatização da Copasa

A oferta foi precificada em R$ 49,03 por ação e movimentou aproximadamente R$ 8,39 bilhões. Foram vendidas ações já pertencentes ao Estado de Minas Gerais, portanto a operação foi secundária: o dinheiro da venda foi para o acionista vendedor, e não diretamente para o caixa da Copasa.

A B3 informa que a oferta correspondeu a 45% do capital social da companhia. A Equatorial foi escolhida como investidora de referência e adquiriu 114.075.921 ações, equivalentes a 30% do capital, por cerca de R$ 5,59 bilhões.

Depois da operação, a composição acionária divulgada pela própria Copasa ficou assim:

Acionista Participação
Equatorial / Gerais Saneamento 30,00%
Fundos Perfin 20,11%
Estado de Minas Gerais 5,03%
Ações em tesouraria 0,28%
Outros acionistas 44,58%

Ou seja: a Equatorial não comprou 100% da Copasa. Ela se tornou o acionista de referência em uma companhia com capital pulverizado. O Estado manteve participação minoritária e uma golden share, que preserva poder de veto em determinadas decisões previstas na legislação e no estatuto.

A mudança de controle chegou à gestão

Em 28 de setembro de 2026, a Copasa concluiu uma assembleia que formalizou nova composição do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva. A companhia passou a destacar sua nova condição de sociedade privada e anunciou Augusto Dantas Borges como diretor-presidente.

Esse passo importa porque a privatização deixa de ser apenas uma mudança no quadro acionário e passa a aparecer na administração cotidiana da empresa: prioridades de investimento, disciplina de custos, política financeira, governança, metas operacionais e estratégia de longo prazo.

O que a privatização pode mudar economicamente

A análise econômica precisa separar três dimensões diferentes: empresa, Estado e usuários.

1. Para o Estado de Minas Gerais

A venda gera uma entrada extraordinária de recursos. A Lei mineira nº 25.664/2025 prevê que os recursos da desestatização sejam destinados à amortização da dívida pública estadual e à criação de um fundo estadual de saneamento básico.

Do ponto de vista fiscal, isso pode reduzir pressão sobre a dívida e abrir espaço para outras prioridades. Mas há uma contrapartida: ao vender a maior parte de sua participação, o Estado também abre mão de uma parcela relevante dos dividendos futuros e da valorização econômica que teria como acionista controlador.

Portanto, a discussão fiscal não é simplesmente “entrou R$ 8,39 bilhões”. A pergunta correta é se o valor recebido hoje, somado à redução de riscos e obrigações futuras, compensa a perda de fluxos patrimoniais que o Estado teria mantido.

2. Para a Copasa

Como a oferta foi secundária, o valor levantado na privatização não entrou diretamente no caixa da empresa. Isso significa que os investimentos futuros em água, esgoto e expansão continuarão dependendo da geração de caixa da Copasa, de dívida, de eventuais novas captações e da eficiência com que a companhia administra seus recursos.

A expectativa favorável à privatização costuma ser que uma gestão privada tenha incentivos mais fortes para reduzir perdas, melhorar produtividade, controlar custos e acelerar investimentos. Essa possibilidade existe, mas não é automática.

Um estudo publicado pelo Ipea, comparando prestadores públicos e privados de saneamento no Brasil, encontrou maior produtividade média do trabalho e do capital nas empresas privadas e melhores indicadores de atendimento em água. Ao mesmo tempo, não encontrou superioridade generalizada em desempenho financeiro nem diferença significativa no atendimento de esgoto. O próprio estudo conclui que privatização, isoladamente, não garante melhora em todas as dimensões do serviço.

É importante não transformar essa evidência histórica em previsão para a Copasa. Ela apenas mostra que o resultado depende de regulação, contrato, governança, qualidade da gestão e execução.

E o impacto social?

Saneamento não é um serviço qualquer. Água e esgoto têm efeitos diretos sobre saúde pública, produtividade, urbanização, meio ambiente e desigualdade. Por isso, uma análise da privatização precisa olhar além da cotação de CSMG3.

Universalização e áreas menos rentáveis

Uma preocupação comum em concessões privadas é o incentivo econômico para priorizar regiões mais densas e rentáveis. No saneamento, isso é especialmente relevante porque levar rede a áreas rurais, periferias ou municípios pequenos pode ter retorno financeiro mais baixo.

A legislação da privatização tenta enfrentar esse risco ao obrigar o adquirente a manter metas de universalização dos serviços de água e esgoto, incluindo áreas rurais e núcleos urbanos informais consolidados.

Na prática, a questão será a execução: metas precisam ser fiscalizadas, medidas e acompanhadas ao longo do tempo. A existência da obrigação legal é importante, mas o impacto social dependerá de sua implementação efetiva.

Tarifas: privatização não significa preço livre

Outro receio recorrente é um aumento automático das tarifas após a privatização. A relação é mais complexa. A Copasa continua submetida à regulação tarifária. A Arsae-MG define regras que buscam conciliar equilíbrio econômico-financeiro da operação, eficiência e modicidade tarifária.

A lei de desestatização também exige manutenção de tarifa social. Isso cria uma proteção institucional para usuários de menor renda.

Por outro lado, grandes programas de investimento precisam ser financiados de alguma forma. Dependendo do desenho regulatório, parte do custo pode aparecer em tarifa, produtividade, dívida ou remuneração do capital. Por isso, o indicador relevante não será simplesmente “a conta subiu ou caiu”, mas a relação entre tarifa, qualidade, cobertura, perdas de água e investimentos realizados.

Emprego e produtividade

A Lei nº 25.664/2025 garante a manutenção dos contratos de trabalho dos empregados da Copasa por 18 meses após a conclusão da desestatização. Essa proteção reduz o risco de uma mudança abrupta no curto prazo, mas não determina a estrutura de emprego depois desse período.

Do ponto de vista econômico, ganhos de produtividade podem vir de tecnologia, processos, redução de perdas e reorganização operacional. Eles também podem envolver mudanças no quadro de pessoal. O efeito social, portanto, dependerá de como a nova gestão buscará eficiência e de como eventuais ajustes serão conduzidos.

Privatização é boa ou ruim para o consumidor?

Não existe resposta responsável antes de observar os resultados.

Os argumentos favoráveis destacam maior disciplina de capital, incentivos à eficiência, capacidade de gestão e potencial aceleração de investimentos. Os críticos apontam riscos de pressão por retorno financeiro, redução de empregos, tarifas mais altas e menor atenção a regiões economicamente menos atraentes.

No caso da Copasa, parte desses riscos está cercada por regulação, metas legais, tarifa social e mecanismos de governança. Mas nenhuma dessas proteções elimina a necessidade de fiscalização.

O teste concreto virá de indicadores mensuráveis:

  • percentual da população atendida com água;
  • cobertura e tratamento de esgoto;
  • nível de perdas de água;
  • volume de investimentos;
  • qualidade e continuidade do serviço;
  • evolução das tarifas;
  • alcance da tarifa social;
  • cumprimento das metas de universalização;
  • produtividade e eficiência operacional.

O que muda para quem acompanha CSMG3

Para o investidor, a privatização altera a tese da companhia. A Copasa deixa de ter o Estado como controlador e passa a ter a Equatorial como acionista de referência em uma estrutura mais pulverizada.

Isso pode mudar decisões de alocação de capital, endividamento, dividendos e ritmo de investimento. Mas não transforma automaticamente CSMG3 em uma ação melhor ou pior.

Os próximos resultados precisarão mostrar se a nova governança consegue elevar eficiência sem comprometer qualidade, metas regulatórias e sustentabilidade financeira.

A leitura mais útil é acompanhar a evolução de margens, retorno sobre capital, investimentos, dívida, perdas de água, expansão da cobertura e política de dividendos. A mudança societária cria uma nova história; os números dirão se ela funciona.

Então a Copasa foi vendida para a Equatorial?

Não exatamente. O Estado de Minas vendeu 45% do capital da Copasa em uma oferta pública. A Equatorial adquiriu 30% e se tornou o maior acionista individual e investidor de referência. O Estado permaneceu com aproximadamente 5% e uma ação especial com direitos específicos.

A privatização já mudou a governança da empresa. O impacto econômico e social, porém, será construído ao longo dos próximos anos.

Para Minas Gerais, a questão central será verificar se o novo modelo consegue combinar três objetivos que nem sempre caminham naturalmente juntos: eficiência empresarial, investimento suficiente e acesso universal a um serviço essencial.

A análise de impacto social e econômico distingue fatos da operação de efeitos potenciais. Evidências históricas do setor foram utilizadas como contexto, não como previsão do desempenho futuro da Copasa.

Fontes

Foram consultadas fontes oficiais e primárias, incluindo a B3, a Relação com Investidores da Copasa, o Cade, a Lei nº 25.664/2025, a Arsae-MG e estudo publicado pelo Ipea.

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